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É até habitual a mídia utilizar-se de indicadores sócio econômicos isolados para comparar o desenvolvimento econômico de municípios. Foi o que aconteceu dias atrás quando foi divulgado o quantitativo de geração de empregos entre Varginha e Pouso Alegre. Varginha teria perdido 396 postos de trabalho e Pouso Alegre gerado 330 postos de trabalho, no mês de janeiro de 2018, segundo dados do CAGED.

A comparação simplificada de sistemas complexos, como são as economias de duas cidades, deve ser mais amplamente analisada. Do contrário, “mal comparando”, seria o mesmo que avaliar dois automóveis apenas pelos seus sistemas de suspensão, ignorando itens como: segurança, aerodinâmica, conforto, economia de combustível.

É fato que a cidade de Pouso Alegre vem crescendo aceleradamente nos últimos anos. A partir de 2011, vários indicadores socioeconômicos, demostram que sua economia “superou” a de outros municípios e a da cidade de Varginha. Segundo o IBGE, a partir de 2012, o PIB per capita de Pouso Alegre supera o de Varginha. A partir de 2013 o orçamento público de Pouso Alegre ultrapassa o de Varginha, entre outros indicadores socioeconômicos que definem o dinamismo econômico de Pouso Alegre. Entretanto, há questões estruturais de maior relevância a serem respondidas:

  • Esta superação econômica e financeira por si só, é o bastante para afirmarmos que a cidade de Pouso Alegre “passou” a cidade de Varginha em termos de desenvolvimento?
  • O modelo de crescimento acelerado, impulsionado pelo setor industrial tornarão Pouso Alegre uma cidade melhor para se viver ou para o empresário investir?

Talvez sim, talvez não. O ideal, é que vários outros indicadores sejam “postos à mesa” e que esta análise considere estes elementos em perspectiva de curto, médio e longo prazo.

Ao mesmo tempo, é preciso desconstruir ou ao menos atualizar ideias antigas, estabilizadas como verdades imutáveis. Uma destas ideias, predominantes entre os gestores municipais e comunidade em geral, é de que as grandes indústrias trazem por si só, o desenvolvimento, pois abririam muitos postos de trabalho e a economia local seria fortalecida. É um conceito forte, construído ao longo de décadas. Entretanto, é um conceito defasado e precisa ser repensado a luz de vários fatores, colocados à prova diante da sincera frieza dos números.

Decorrente deste pressuposto, outro equívoco é comum: os gestores, por destinarem grande parte dos seus recursos para atraírem grandes empresas, se esquecem das empresas já instaladas no município, especialmente as pequenas e micros, que são as que têm maior capacidade de geração de empregos e sustentação da economia local.

Em uma reflexão sobre economia, é evidente que a geração de empregos é um dos fatores mais importantes, mas há que se questionar, por exemplo, os impactos positivos e negativos que a instalação de grandes indústrias pode trazer para a economia local:

  • Qual a qualidade destes empregos sob o ponto de vista da qualificação e remuneração dos colaboradores?
  • Qual o percentual de residentes originais no município serão empregados naquele empreendimento e qual o percentual virá de outros municípios?
  • Qual o tempo médio que esta mão de obra será empregada?

Este contingente, boa parte vinda de outros municípios, demandará por educação, saúde, transporte público, moradia popular, demandas estas financiadas com recursos do Poder Público.

  • A atração de empregos em grande quantidade, em um curto período de tempo, com remuneração básica e baixa qualificação, é vantajosa para a cidade a médio e longo prazo, ou os recursos do Poder Público investidos no empreendimento retornarão ao município a ponto de compensar os gastos sociais para manter esta nova “população extra” que o município receberá em função do grande empreendimento?

Enfim, que tipo de desenvolvimento planejamos e decidimos promover em nossos municípios?

Vamos refletir?

 

Renato Clepf
Sociólogo e diretor do Instituto Rede Pesquisa e Planejamento

 

 

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