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Tem tanto poder que esta pergunta não o preocupa. O governante está sempre muito seguro de si mesmo. É vítima de uma disfunção chamada ignorância de segundo grau. Aquele que não sabe que não sabe, não sabe que pode aprender, nem quer aprender. Falo do político tradicional com atitudes de um “chefete”, mas em funções de “estadista”. Deve governar um país e crê que pode fazê-lo apenas com sua experiência e formação universitária departamentalizada.

Todavia a política é uma arte. E será que existe alguma arte que não requeira suporte técnico-científico? A política e o governo requerem um forte aporte das ciências. O governante que assume a presidência com 70% de aprovação e termina com 10% não é apenas um mau artista, vítima de circunstâncias adversas. É também um governante incapaz. Aceita e se adapta às ferramentas de governo que herda. Muda a proposta de governo, diferencia-se por seu projeto, mas quer governar com as mesmas ferramentas de antes.

Confia na inteligência e experiência para se diferenciar pelos resultados e desvaloriza as ferramentas de governo por não conhecê-las. Os partidos políticos e os meios de comunicação fazem os mesmo. Apoiam ou rejeitam o projeto de um governante sem considerar a organização primitiva de seu gabinete, o cerco especializado de técnicos que o rodeiam e impedem o processamento técnico político das decisões, a separação brutal entre técnica e política no estado-maior do governo, a inexistência da prática de tomada e prestação de contas por desempenho ou a debilidade da monitorização da gestão pública.

Governa-se com ferramentas pobres e impotentes para modernizar o aparato público. Os grandes problemas nacionais são declarados como “parte da paisagem”, enquanto os executivos sobrevivem entre montanhas de papéis e pequenos problemas, o que basta para que se sintam importantes. Perde-se a visão global e ninguém avalia periodicamente a marcha do governo.

Ninguém se atreve a incomodar o líder com uma avaliação crítica, por temer a perda de prestígio frente ao governante solitário, apoiado calidamente por seus guarda-portas, sem alternativas de método de trabalho. O líder perde estatura. As circunstâncias governam os governantes. Isso tem acontecido com políticos inteligentes, experimentados e honestos. O que ocorre?

A disciplina denominada ciências e técnicas de governo põe o dedo na ferida. Não se pode bem governar apenas com bons profissionais de nível superior. São necessárias equipes que dominem ciências e técnicas de governo ou tenham humildade de aprendê-las. Essas ciências e técnicas potencializam a arte do político, ainda que não a substituam. O governante deve administrar três grande variáveis: o projeto de governo, a governabilidade necessária a seu projeto e a capacidade de governo.

Esse triângulo constitui um sistema de governo. Aí está a chave. Sem capacidade de governo não se formula um bom projeto, nem se administra com perícia a governabilidade. A capacidade de governo se prova no manejo de três balanços chaves: 1) o balanço da gestão política, em que se administra o poder político como recurso escasso; 2) o balanço da gestão econômica, em que prima a escassez de recursos econômicos; 3) o balanço de intercâmbio de problemas, que trata das questões cotidianas que as pessoas  valorizam.

O sinal positivo ou negativo de cada balanço determina o sinal positivo ou negativo do balanço global do governo. A metáfora dos três cintos é boa para entender esses balanços e, certamente, nenhum bom estrategista aperta os três ao mesmo tempo. Se existem dificuldades econômicas, deve-se compensar o aperto no cinto (2) com alguma folga nos outros cintos. Em outras palavras, se for necessário impor sérios sacrifícios no âmbito econômico, deve-se compensá-los com benefícios políticos na distribuição do poder, na ética pública, na legitimidade do sistema político e com benefícios não-econômicos importantes para a vida dos cidadãos.

A seleção da agenda do governantes constrói de antemão a possibilidade do manejo inteligente dos três cintos de governo. Se o governante improvisa, com base em sua experiência e arte, apenas por acaso conseguirá um ajuste compensatório dos três cintos. Ao contrário, o planejamento estratégico público moderno, a principal ferramenta do governante, permite manejar e monitorar os resultados obtidos pelo governo e realizar o cálculo de previsão sobre o manejo dos três cintos.

Na América Latina, presidentes foram destituídos por apertarem, simultaneamente, os três cintos de governo por barbarismo político ou tecnocrático. Existem, também presidentes descapitalizados por não se atreverem a apertar um cinto e compensá-lo com o manejo dos outros. Existem presidentes que caminham rumo ao abismo ou à mediocridade, sem sabê-lo, dominados pela improvisação e pela rotina diária. Não sabem que não sabem, mesmo quando sabem muito da micropolítica. Apenas se surpreendem com os resultados que alcançam e, certamente, não buscam.

 

Artigo do economista chileno Carlos Matus, publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Opinião, em 09/jun/1996. p. 1-3.

 

 

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